Ultima atualização em 30 de Janeiro de 2026 às 11:13
Excursão acadêmica amplia o olhar sobre a diversidade e relevância dos solos no Oeste do Pará.
Para cuidar é preciso conhecer. Foi essa a motivação que levou pesquisadores e alunos a participarem da primeira Excursão Técnica Imersiva para conhecer perfis de solo que marcam significativamente a região Oeste do Pará. A primeira parada foi numa trincheira situada do lado direito de uma estrada vicinal, localizada a 10 km da rodovia que liga Santarém a Alter do Chão. “Uma área recém desmatada de cerrado arbóreo-arbustivo”, definem os pesquisadores.
O professor Clodoaldo dos Santos, do Instituto de Biodiversidade e Florestas (Ibef) da Ufopa, explica as atividades da excursão: “Vamos fazer o estudo do nosso primeiro perfil de solo, que é o perfil que representa toda essa área onde nós trabalhamos. Desde a sede da Ufopa até aqui, na praia de Ponta de Pedra. Nós temos neste perímetro um perfil que é representativo dessa área, que é um neossolo quartzarênico”.
Os neossolos quartzarênicos, formação de solo a que o professor se refere, são solos cujos processos de formação são recentes e que possuem uma textura muito arenosa. O local caracteriza-se pelo "órtico húmico", ou seja, possui alto teor de matéria orgânica com restos de vegetais em diferentes estados de decomposição.
“Em função dessas características, é um solo que precisa de mais cuidado, mais manejo; por isso, conhecendo a gênese do solo fica mais fácil aplicar um manejo mais sustentável e mais adequado para aquela área, de forma que não se degrade o solo e se use o solo de maneira mais racional possível”. A pedologia busca definir e classificar os diversos tipos de solos.
Uma das integrantes da excursão, Zulmira Dantas de Araújo, que está concluindo o curso de Agronomia, reafirma a importância da atividade extraclasse: “O solo é fundamental para sustentar a vida na terra; então entender, saber como funciona, saber a importância do solo para manejá-lo bem, principalmente na agricultura aqui da nossa região, é muito importante”. E conclui: “Para mim, como agrônoma, entender e saber relacionar isso é fundamental, principalmente na questão das culturas que a gente produz aqui na região”.
A segunda parada da excursão foi a Estação da Embrapa, em Belterra. O objetivo foi conhecer outro perfil de solo, característico do local. Dentro de uma perfuração de quase dois metros de profundidade, os alunos puderam ver e tocar o latossolo amarelo, ou solos formados por “argilas de Belterra”, assim classificadas por pesquisadores junto com o enigma: como esse solo com 90% de argila se forma sobre um solo arenoso?
O professor Carlos Schaefer, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), que há décadas realiza estudos sobre os solos amazônicos, ressalta a importância de conhecer para preservar. Ele explica esse enigma: “Você tem castanheiras altamente produtivas em cima de um solo que não tem nada, evidenciando a maneira muito perfeita com que a floresta cicla os seus nutrientes e prende esses nutrientes num ciclo retroalimentado constante que mantém essa produtividade”.
Para ele, os solos são a base da segurança alimentar: “Se a gente cuidar do solo, se tivermos um solo saudável que se mantém produtivo ao longo do tempo com os cuidados de manejo que a gente toma, o futuro da humanidade está garantido porque a gente vai saber lidar com as mudanças ambientais, climáticas e hidrológicas que vierem”.
O professor Norberto Noronha, da Universidade Federal Rural da Amazônia (Ufra), explica que a textura argilosa confere uma série de benefícios para o solo: “Um dos principais benefícios é a retenção de água, isso é muito importante nos períodos mais secos. Em contrapartida, a fertilidade dele é baixa, o que pode ser manejado com correções e fertilizações”. O professor faz um alerta, destacando as funções do solo: “O solo é um recurso natural finito, ele recebe a água da chuva, conduz essa água para os lençóis freáticos, recicla nutrientes, cicla matéria, estoca carbono, que é uma função muito importante do solo. Se você afeta o sistema no sentido de prejudicar esse recurso, o solo pode sofrer degradações e perder várias dessas funções para o funcionamento do ambiente em geral e para a agricultura, então é importante evitar essas perdas. Como? Estudando esses solos e desenvolvendo técnicas para o melhor aproveitamento desse recurso”.
Entendendo o solo como a “base da vida”, a professora Iolanda Maria Soares Reis, ligada ao Instituto de Biodiversidade e Florestas (Ibef) da Ufopa, fala sobre o papel central da pesquisa e da inovação no contexto amazônico: “Nós precisamos conhecer novas estratégias de uso sustentável e discutir tecnologias para preservação e conservação do solo, que é um recurso natural fundamental à vida, pois é dele que vem o alimento, a água potável. Precisamos usar esse solo com sustentabilidade”.
“Se nós não cuidarmos do solo, o processo vai degradar de forma muito acelerada e encurtar o nosso tempo de vida como cultura, como civilização, como sociedade no planeta, e ninguém quer isso, né? A gente quer cuidar para que tenhamos condições de viver num planeta saudável para a gente e para as futuras gerações”, conclui Carlos Schaefer.
A excursão imersiva marcou o encerramento do I Encontro Amazônico de Ciência do Solo, ocorrido na Ufopa de 13 a 15 de agosto; o evento reuniu profissionais que atuam na região e pesquisadores de fora com atuação na Amazônia e discutiu as fragilidades, as limitações e os potenciais da região para os diferentes usos do solo.
Lenne Santos – Ascom/Ufopa
25/08/2025