Ultima atualização em 21 de Maio de 2026 às 11:17
A coleção explora memórias orais, mitologias e habitações da região de várzea do Baixo Amazonas
Uma antropóloga, artista e pesquisadora da Universidade Federal do Oeste do Pará (Ufopa) foi selecionada para concorrer ao Prêmio Pierre Verger, uma das mais importantes premiações da antropologia visual no Brasil, que ocorrerá no âmbito da 35ª Reunião Brasileira de Antropologia (RBA), de 13 a 17 de julho, em Goiânia (GO).
A obra selecionada foi O resgate das Taperas de Encantados, de Emilly Yasmim Lopes Cardoso, antropóloga graduada pela Ufopa, mestranda do Programa de Pós-Graduação em Antropologia e Arqueologia (PPGAA) e membro do Núcleo de Pesquisa e Documentação das Expressões Afro-Religiosas do Oeste do Pará e Caribe (NPDAFRO).
A coleção O resgate das Taperas de Encantados é composta por 12 telas de arte digital e explora uma abordagem etnográfica sobre memórias orais e mitologias da região de várzea do Baixo Amazonas, no Oeste do Pará. A “Encantaria Amazônica”, manifestação espiritual da cosmologia afro-indígena característica das relações dos comunitários com o ecossistema de várzea, é basilar na composição das obras; na coleção, ela foi conectada pela artista com as denominadas “taperas”, espécie de moradas ou casas abandonadas bastante presentes nas paisagens de várzea.
As obras foram produzidas junto às pesquisas para o trabalho de conclusão de curso da pesquisadora, desenvolvido entre 2023 e 2024. A coleção está disponível em uma plataforma on-line para apreciação do público, e também já foi exposta na Unidade Tapajós da Ufopa e durante o festival Amazônia Queer, realizado em Alter do Chão, ambos em 2025.
Para Emilly, a indicação ao prêmio é uma grande felicidade, pois “quem vive aqui na Amazônia, especialmente na região Oeste do Pará, durante muito tempo sempre careceu de recursos, de reconhecimento; então, quando um de nós consegue ter reconhecimento a nível nacional e internacional, é uma grande festa para todo mundo”.
A artista destaca o seu histórico familiar de falta de acesso à educação e o fato de ter sido a primeira pessoa de sua família a ingressar em uma universidade federal. Esses fatores, inicialmente, fizeram com que ela acreditasse que espaços como o da Reunião Brasileira de Antropologia fossem “muito distantes” para ela. No entanto, ela reconhece que esse ponto de vista foi mudando a partir do incentivo de docentes e colegas da época da graduação.
“Vai ser a segunda vez que eu participo de um evento como esse, agora na pós-graduação, e isso é uma conquista muito grande não só para a universidade na qual eu estou inserida, como também para a história do meu programa de mestrado, da minha graduação. Porque a gente precisa ter referências, precisa ver que é possível que pessoas nativas da nossa região tenham reconhecimento dos trabalhos produzidos aqui, porque nós somos os detentores desses conhecimentos”, afirma.
Premiação: O Prêmio Pierre Verger (PPV) é promovido pela Associação Brasileira de Antropologia (ABA) e reconhece produções em filme, fotografia e desenho que dialogam diretamente com a pesquisa antropológica, valorizando critérios como relevância científica, sensibilidade estética, originalidade e compromisso ético. Com sua primeira edição em 2008, o prêmio tornou-se um dos principais festivais de filmes, fotografias e artes gráficas oriundos de pesquisas antropológicas da América Latina.
O trabalho de Emilly concorre na categoria “Desenho”; entre as 35 inscrições na categoria, foi uma das 12 selecionadas para concorrer. Todas as obras selecionadas passam a integrar as mostras oficiais do prêmio, com exibição durante a RBA e posterior circulação em mostras itinerantes no Brasil e no exterior.
A Mostra de Fotografias e Desenhos ocorrerá entre os dias 9 e 13 de julho na galeria da Faculdade de Artes Visuais (FAV) da Universidade Federal de Goiás (UFG), Campus Samambaia.
A fase final da premiação ocorrerá no dia 13 de julho, durante a cerimônia de abertura da 35.ª RBA, momento em que serão divulgados os premiados de 1.º, 2.º e 3.º lugares e as menções honrosas.
Vocação artística: Segundo Emilly, além da base para a pesquisa acadêmica, a valorização da sua carreira artística também foi impulsionada pela Ufopa, por meio do projeto “Muralismo no Campus”, promovido em 2022 pela Pró-Reitoria da Cultura, Comunidade e Extensão (Procce). O projeto teve como objetivo evidenciar o poder da arte e da cultura no ambiente universitário e fortalecer o diálogo com artistas locais.
A artista foi uma das quinze pessoas selecionadas para realizar intervenções artísticas muralistas a partir da ideia conceitual “Saberes Amazônicos: Arte, Cultura e Educação”, sob a curadoria de Anderson Pereira, antropólogo e artista plástico paraense. Ela assinou a obra “Senhor das Raízes”.
Quando o edital do projeto foi lançado, Emilly nunca tinha pintado em muro e não acreditava que poderia ser selecionada, mas decidiu se experimentar. “Eu mandei um esboço do projeto ‘Senhor das Raízes’, que é o desenho de um jovem no rio, dentro de uma canoa com vários paneiros de açaí. Esse desenho foi inspirado nas histórias do meu avô, de quando ele morava nas comunidades de várzea e ia para o mato pegar açaí, pegar tucumã”, comenta.
Ela conta que uma das suas principais referências foi o próprio Anderson Pereira, que havia sido aluno de uma das primeiras turmas do curso de Antropologia da Ufopa, e um dos fundadores do NPDAFRO, o grupo de pesquisa a que ela é vinculada atualmente. “O Anderson foi uma das pessoas que mais me incentivou, junto com os servidores da Procce, a seguir tentando, mesmo com a dificuldade de pintar em muro. Foi um processo meio sofrido, mas que me serviu de experiência. Eu lembro que quando teve o lançamento eu recebi uma carta em que estava escrito ‘Artista Visual’, e até então eu nunca tinha me visto como artista. Então eu ganhei esse nome de ‘artista visual’ dentro da universidade, a partir desse projeto, e eu passei a me identificar dessa forma”, compartilha a artista.
As intervenções artísticas do projeto “Muralismo no Campus” foram realizadas no muro do Bosque Mekdece, localizado na entrada da Unidade Tapajós, em Santarém; elas também podem ser apreciadas digitalmente aqui.
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Letícia Baracho – Ascom/Ufopa
21/05/2026