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Universidade Federal do Oeste do Pará

Ultima atualização em 3 de Junho de 2026 às 17:03

Pesquisa na Ufopa indica uso da casca da andiroba para produção de corantes naturais


A substituição de corantes sintéticos é alternativa para menor impacto ambiental

Pesquisadoras da Universidade Federal do Oeste do Pará (Ufopa), em colaboração com o Instituto Superior de Engenharia do Instituto Politécnico de Coimbra, Portugal, publicaram um estudo inovador que apresenta uma alternativa ecológica, utilizando as cascas de andiroba (Carapa guianensis) como fonte sustentável de corantes naturais para o tingimento de tecidos.

A motivação principal do estudo foi a busca de alternativas sustentáveis para a indústria têxtil, substituindo corantes sintéticos, de alto impacto ambiental, por corantes naturais obtidos a partir de resíduos vegetais, como as cascas de andiroba, normalmente descartadas após a extração do óleo.

O objetivo da pesquisa foi transformar um resíduo abundante em um produto de maior valor, contribuindo para a bioeconomia amazônica e para o uso sustentável dos recursos da região. Para isso, foram feitas coleta de cascas de andiroba, produção de extratos, análises químicas, testes de aplicação em tecidos e avaliação da durabilidade das cores obtidas.

A extração do óleo gera uma grande quantidade de cascas, antes descartadas como resíduo. O estudo identificou que esse material, rico em taninos (compostos naturais com forte capacidade de pigmentação), tem potencial para ser utilizado como alternativa aos corantes sintéticos.

Sustentabilidade e bioeconomia

A indicação de que as cascas do fruto da andiroba têm potencial como fonte sustentável de corantes naturais significa que um resíduo abundante e sem valor comercial pode ser transformado em um corante eficiente para tingir fibras naturais e potencializar a economia local.

Com isso, parte dos corantes sintéticos, conhecidos pelo elevado impacto ambiental e toxicidade devido à dependência de derivados do petróleo, podem ser substituídos por uma alternativa de menor impacto ambiental, em um processo que também pode criar oportunidades econômicas para comunidades extrativistas, valorizar saberes tradicionais sobre pigmentos vegetais e fortalecer a bioeconomia amazônica.

Para a indústria têxtil, isso representa a possibilidade de desenvolver produtos com identidade regional e maior apelo sustentável.

Da comunidade para os laboratórios

A pesquisa tem relação direta com o conhecimento popular, pois a andiroba é uma planta tradicionalmente utilizada por populações amazônicas há gerações, tanto na medicina tradicional quanto na produção artesanal de pigmentos naturais.

O estudo reconhece e valoriza esse saber ancestral, buscando compreender cientificamente os compostos responsáveis pela coloração e validar, em laboratório, práticas já presentes na cultura local.

As cascas de andiroba utilizadas na pesquisa foram coletadas na comunidade de Samaúma (PA), onde o agroflorestor Adamor Santos, ex-garimpeiro, desenvolveu, com apoio de professores e estudantes da Ufopa, uma agroindústria comunitária dedicada à extração de óleos florestais, incluindo o óleo de andiroba.

A comunidade Samaúma está localizada no Assentamento Tapera Velha, na região do planalto de Santarém, município no Oeste do estado do Pará, próximo da Floresta Nacional do Tapajós, onde o conhecimento sobre espécies amazônicas, como a andiroba, faz parte do cotidiano das famílias.

Assim, a pesquisa atua como uma ponte entre saberes tradicionais e tecnologia moderna, fortalecendo a valorização da biodiversidade e do conhecimento amazônico.

 

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Adamor Santos e Rosa Mourão.

 

Colaboração científica internacional

O estudo foi desenvolvido durante o doutorado sanduíche de Kellyane Cesar, acadêmica do Programa de Pós-Graduação em Biodiversidade e Biotecnologia da Amazônia Legal – Bionorte/Ufopa, no Instituto Superior de Engenharia, em Coimbra (Portugal).

Participaram da pesquisa as professoras Rosa Mourão e Sandra Sarrazin, da Ufopa, e as pesquisadoras Nazaré Pinheiro e Filipa Fonseca, da instituição portuguesa, tendo havido ainda colaboração de alunos do curso de Farmácia do Instituto de Saúde Coletiva (Isco) da Ufopa.

A Ufopa coordena a pesquisa, sendo responsável pela coleta de cascas de andiroba, pelo desenvolvimento dos métodos de extração, pelas análises químicas iniciais e pelos testes de tingimento em fibras naturais, onde ocorrem a parte central do trabalho científico e a interação com as comunidades locais. O Instituto de Coimbra atua como parceiro internacional, contribuindo com expertise em tecnologia têxtil para a avaliação da solidez e da fixação das cores, além de fortalecer as discussões sobre escalonamento e padrões industriais.

O trabalho também está associado ao projeto institucional voltado ao fortalecimento da infraestrutura científica e tecnológica da Amazônia Legal, financiado pelo edital MCTI/FINEP/FNDCT – Pró-Amazônia, envolvendo o Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), a Financiadora de Estudos e Projetos e o Fundo Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico, bem como a bolsa de produtividade do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) da pesquisadora Rosa Mourão.

Essa articulação entre o grupo de pesquisa, o curso e o projeto institucional permite que o estudo tenha impacto científico, formativo e social, ampliando a capacidade da universidade de gerar conhecimento aplicado sobre a biodiversidade amazônica.

 

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Rosa Mourão e Kellyane Cesar com fibras tingidas.

 

Inovação limpa e de qualidade

Buscando uma abordagem totalmente ecológica, a equipe de pesquisa extraiu o corante do pó de cascas, utilizando solventes verdes, como a água, sem recorrer a solventes químicos agressivos.

O extrato natural foi aplicado no tingimento de fibras como algodão, linho, lã e seda, resultando em uma paleta elegante de tons bege e cinza acastanhados. Os testes demonstraram boa fixação e resistência ao desbotamento, tanto sob exposição prolongada à luz solar quanto após lavagens com água fria e quente.

Os resultados da pesquisa evidenciam o potencial da ciência para desenvolver soluções concretas diante dos desafios ambientais contemporâneos. Ao transformar um resíduo florestal em um produto de valor agregado, o estudo contribui para reduzir os impactos ambientais da indústria têxtil, ampliar o uso de alternativas sustentáveis aos corantes sintéticos e fortalecer as cadeias produtivas de base comunitária. Além disso, cria oportunidades de geração de renda para populações amazônicas que atuam na conservação da floresta.

Mais do que propor uma nova aplicação para resíduos vegetais, a pesquisa demonstra que ciência, biodiversidade e saberes tradicionais podem atuar de forma integrada na construção de uma economia mais sustentável, inclusiva e alinhada às potencialidades da Amazônia.

 

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Paleta de cores resultantes da pesquisa.

 

Sobre a publicação

A pesquisa foi publicada na edição de 2026 dos anais científicos da 7.ª Conferência Internacional WASTES: Solutions, Treatments and Opportunities pela editora Springer. Título do trabalho: “Valorization of Carapa guianensis Fruit Waste as a Sustainable Source of Natural Textile Dyes” (disponível AQUI).

Texto: Rosa Rodrigues – Ascom/Ufopa
Fotos: Divulgação da pesquisa
03/06/2026

Cascas de andiroba ("Carapa guianensis")

A substituição de corantes sintéticos é alternativa para menor impacto ambiental

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