Ultima atualização em 6 de Outubro de 2026 às 17:59
Evento integra a programação da XIII Jornada Acadêmica da Ufopa.
O XIII Seminário de Pós-Graduação da Universidade Federal do Oeste do Pará (Ufopa) reúne cerca de 265 trabalhos desenvolvidos por estudantes dos programas de pós-graduação stricto sensu da Universidade. Integrado à XIII Jornada Acadêmica da Ufopa, que começou na segunda-feira, 5 de outubro, o evento promove a divulgação e a discussão de pesquisas de mestrado e doutorado em diferentes áreas do conhecimento.
Todas as apresentações estão ocorrendo no Núcleo de Salas de Aula (NSA) da Unidade Tapajós, situada no bairro do Salé, em Santarém (PA). Do total de inscritos, 20 trabalhos foram selecionados para apresentação oral e estão concorrendo à Menção Honrosa. As apresentações do XIII seguem até quarta-feira, 7 de outubro.
O Seminário tem como objetivos promover a interação e o intercâmbio acadêmico e socializar os resultados das pesquisas desenvolvidas na pós-graduação. Os estudos estão vinculados a dissertações e teses e abordam questões de interesse regional, nacional e internacional, incluindo temas relacionados ao contexto amazônico.
As pesquisas apresentadas abrangem áreas como educação, ciências agrárias, ciências biológicas, engenharias, licenciaturas e ciências humanas. Nesta edição, educação concentra o maior número de trabalhos, seguida pelas áreas de ciências agrárias e ciências biológicas.
Para a pró-reitora de Pesquisa, Pós-Graduação e Inovação Tecnológica da Ufopa, Dávia Talgatti, a pós-graduação tem papel importante na formação e qualificação de profissionais no Oeste do Pará e na produção de conhecimento em diálogo com as comunidades da região. “A pós-graduação atua junto às comunidades, integrando as pessoas que vivem nesse espaço amazônico, inclusive indígenas e quilombolas. Estamos formando essas pessoas e levando suas vozes para além da Universidade”, destaca.
Territórios e Identidades
A saúde mental dos povos indígenas é tema da pesquisa “Cuidado e Saúde Mental nas Aldeias do Território Indígena Cobra Grande”, de Ana Vitória Moreira de Sousa, mestranda do Programa de Pós-Graduação em Antropologia e Arqueologia (PPGAA) da Ufopa. Apresentado no formato de pôster, o estudo analisa como moradores do território, localizado à margem esquerda do Rio Arapiuns, em Santarém, compreendem o sofrimento psíquico e o adoecimento e mobilizam práticas de cuidado. Orientada pela professora Lucybeth Camargo de Arruda, a pesquisa também investiga as tensões entre os saberes indígenas e os saberes biomédicos no âmbito das políticas públicas de saúde mental.
De acordo com a mestranda, os resultados mostram que o sofrimento psíquico é compreendido a partir de desequilíbrios nas relações entre as pessoas, a comunidade, o território e outros elementos presentes nas concepções indígenas. As práticas de cuidado identificadas envolvem o uso de plantas, os conhecimentos dos pajés, o apoio familiar e comunitário e o acesso aos serviços de saúde. “Para ampliar a atenção à saúde mental indígena, é necessário reconhecer as especificidades socioculturais dos povos indígenas e compreender que o cuidado é produzido por meio de uma rede de relações, saberes e práticas”, afirma Ana Vitória de Sousa.
Também vinculado ao PPGAA, outro estudo apresentado no formato de pôster é “Corpo, Nome e Existência: construção de identidades e reconhecimento social de pessoas travestis e transexuais”, de Seleny D’Clarmont da Silva Araújo, primeira mulher trans a ingressar em um programa de pós-graduação da Ufopa. Sob orientação da professora Carla Ramos, a pesquisa investiga como pessoas travestis e transexuais residentes em Santarém constroem suas identidades de gênero e buscam reconhecimento social, considerando o corpo e o nome como dimensões centrais dessas experiências nas relações com a família, a escola, os serviços de saúde e os sistemas de justiça.
O estudo utiliza a etnografia como orientação metodológica e prevê observação participante, diário de campo e entrevistas narrativas. A pesquisa busca compreender as experiências de reconhecimento ou de negação vivenciadas por essa população. “Investigar essa temática em Santarém permite considerar as particularidades sociais e territoriais desse contexto”, afirma Seleny D’Clarmont, ao destacar características da região, como a proximidade com ambientes rurais e a presença de comunidades indígenas e quilombolas.
Pesquisas dialogam com a realidade amazônica
Na manhã desta terça-feira, 6 de outubro, ocorreram as apresentações dos 20 trabalhos selecionados para a Sessão Técnica de comunicação oral. Devido a qualidade apresentada, as pesquisas concorrem à Menção Honrosa do evento.
Entre os estudos selecionados está “Fontes e formas de financiamento da educação em tempo integral na Região Metropolitana de Santarém/PA (2012-2025)”, de Kedna Syuianne Quintas Melo, vinculada ao Programa de Pós-Graduação em Educação (PPGE) da Ufopa. Proveniente de sua tese de doutorado, a pesquisa analisa as fontes e formas de financiamento público da educação integral nos municípios de Santarém, Belterra e Mojuí dos Campos, situados na região Oeste do Pará. O objetivo é compreender como os recursos públicos contribuem para a efetivação dessa modalidade como política pública.
Segundo a pesquisadora, os resultados apontam descontinuidades nas políticas de financiamento e diferenças entre os programas implementados no período analisado. O estudo identifica ainda disputas de interesses locais, limites orçamentários e impactos provocados pelas mudanças de governo. “O financiamento da educação integral ainda é marcado por disputas de interesses locais e por limites orçamentários. Muitas dessas iniciativas acabam sendo políticas de governo, e não de Estado, o que provoca descontinuidades”, explica Kedna Melo, que foi orientada pela professora Lilia Colares.
O acesso de estudantes de comunidades do interior à educação superior é abordado na pesquisa “Egressos do Some na Ufopa: acesso, permanência, formação e desenvolvimento sustentável no interior da Amazônia”, de Luciandro Tássio Ribeiro de Souza, doutorando do Programa de Pós-Graduação em Sociedade, Natureza e Desenvolvimento (PPGSND), sob a orientação da professora Tânia Brasileiro. O estudo analisa as trajetórias de acesso, permanência e formação acadêmica de egressos do Sistema de Organização Modular de Ensino (Some) que ingressaram na Ufopa, além das possíveis relações entre a formação superior e o desenvolvimento sustentável em suas localidades de origem.
Os resultados parciais mostram que, entre 2019 e 2025, o Some em Santarém formou 4.466 estudantes. A pesquisa localizou 237 egressos que ingressaram na Ufopa, o equivalente a 5,3% desse total. Entre eles, 114 entraram pelo processo seletivo especial indígena. “O acesso não encerra a questão. É preciso compreender como a permanência, a formação acadêmica, os currículos, a assistência estudantil, a diversidade cultural e étnica e os vínculos com os territórios de origem interferem na trajetória desses estudantes”, ressalta Luciandro de Souza.
A educação científica voltada ao enfrentamento das mudanças climáticas é tema da pesquisa “Interlocução universidade-escola-comunidade como estratégia de enfrentamento das mudanças climáticas”, de Mayara Duarte da Silva, doutoranda do Programa de Pós-Graduação em Sociedade, Natureza e Desenvolvimento (PPGSND). Orientado pela professora Tânia Brasileiro, o estudo analisa a experiência do projeto EcoBairro e propõe um modelo de educação científica para o desenvolvimento sustentável baseado na integração entre universidade, escola e comunidade. A proposta busca aproximar conhecimentos científicos e tradicionais e estimular a participação social na produção e democratização do conhecimento, considerando as especificidades socioambientais, econômicas e culturais da Amazônia.
Os resultados indicam que a integração entre estudantes de diferentes níveis de formação, pesquisadores e moradores favorece a troca de conhecimentos e práticas educativas participativas e contextualizadas. Os participantes avaliaram positivamente a atuação da universidade e o potencial dessa articulação para a educação científica diante da crise climática. “A integração entre universidade, escola e comunidade permite compartilhar conhecimentos e saberes e desenvolver uma educação científica participativa, com potencial para contribuir no enfrentamento das mudanças climáticas”, afirma Mayara.
A relação entre território, conhecimentos tradicionais e conservação da biodiversidade aparece no estudo “Sistema agrícola do povo Borari: produção do território e (r)existência indígena na Terra Indígena Maró, Estado do Pará”, de Gracineiva Alves de Sousa, mestra pelo Programa de Pós-Graduação em Sociedade, Ambiente e Qualidade de Vida (PPGSAQ). Desenvolvida na aldeia Novo Lugar, na Terra Indígena Maró, a pesquisa buscou compreender a constituição do sistema agrícola tradicional do povo Borari, considerando os ambientes, as práticas, os conhecimentos, as transformações e as estratégias utilizadas para garantir sua continuidade.
A pesquisa identificou um sistema agrícola integrado às roças, aos quintais, à floresta e aos rios, espaços que articulam produção de alimentos, aprendizagem e transmissão de conhecimentos entre gerações. Foram identificadas 20 etnovariedades de mandioca. O estudo também registrou desafios relacionados às mudanças climáticas, à saída de jovens para a cidade e às pressões sobre o território. “Mesmo diante das mudanças climáticas, da saída dos jovens e das pressões territoriais, a comunidade desenvolve estratégias de adaptação e fortalecimento. Proteger o território é fundamental para manter a biodiversidade, os conhecimentos e as práticas tradicionais, a identidade cultural e a vida coletiva do povo Borari”, destaca Gracineiva de Sousa, que é oriunda desse território.
Pesquisa comprometida com o território
Convidada externa para avaliar trabalhos do Seminário, a professora Camila Ferreira da Silva, da Universidade Federal do Amazonas (Ufam), destaca que, apesar da diversidade temática, as pesquisas apresentadas mantêm forte relação com a realidade regional. Entre os temas avaliados estão educação ambiental, sustentabilidade, financiamento da educação e acesso à universidade.
“Mesmo com temas diferentes, foi muito importante ver todos os trabalhos tratando da Amazônia, de Santarém e de regiões próximas, fazendo ciência a partir da realidade amazônica, de seus povos, de suas relações e de seus modos de vida. Além da qualidade acadêmica, são pesquisas que demonstram compromisso social e ético com o território amazônico”, avalia Camila Silva.
A XIII Jornada Acadêmica da Ufopa segue até 9 de outubro, reunindo atividades de pesquisa, pós-graduação, ensino e extensão.
Conheça os cursos de pós-graduação da Ufopa (AQUI).
Texto e fotos: Maria Lúcia Morais, Ascom/Ufopa
06/10/2026